Porto Madeira, uma aldeia de Cabo Verde virada para a arte
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A vinte minutos da cidade da Praia, no município de Santa Cruz, fica situada uma pequena aldeia, encaixada num dos montes mais emblemáticos da ilha de Santiago (Monte Bidela), com muitos projectos.
Praia - Há já alguns anos que a artista plástica Misá procura realizar um projecto muito pessoal de desenvolvimento rural. Com o objectivo de incluir Porto Madeira no circuito cultural e turístico de Cabo Verde conseguiu, em parceria com outras organizações, realizar um encontro internacional de artes numa pequena aldeia do interior de Santiago. A vinte minutos da cidade da Praia, no Município de Santa Cruz, fica situada uma pequena aldeia, encaixada num dos montes mais emblemáticos da ilha de Santiago (Monte Bidela). Porto Madeira, assim se chama, é uma pequena aglomeração de casinhas tipicamente rurais separadas pela estreita estrada que atravessa a localidade e por vales ora ressequidos ora verdejantes, conforme a época do ano. Foi em Porto Madeira, onde passou parte da sua infância e para onde regressou agora, que a artista plástica Misá (Maria Isabel Alves, agraciada no ano passado com um prémio da fundação suíça WWSF) decidiu implantar o seu projecto de desenvolvimento pela arte e turismo rural e ecológico. A ideia começou a ganhar corpo há cerca de quatro anos e finalmente está a ver os primeiros frutos. A génese de tudo terá sido a criação da ONG Abi-Djan (Associação de Beneficência Intercultural-Dinamismo dos Jovens Artistas pelas Nações) e o seu envolvimento com a associação local Agro Porto Madeira. Juntas, as duas organizações têm procurado condições propícias para criar turismo rural e ecológico. «Uma das nossas preocupações é garantir à população local oportunidades de trabalho e de porem em prática os seus conhecimentos tradicionais na culinária, artesanato ou mesmo na medicina tradicional», explica Misá, que não esconde o orgulho pelo que já conseguiram concretizar, nomeadamente a construção de tanques e chafarizes para abastecimento de água, edificação de casas de banho para as famílias locais, criação e apetrechamento de uma biblioteca, instalação telefónica para uso comunitário e a construção de um parque infantil. Em curso estão as obras de construção da cantina escolar e de uma placa desportiva. Outra importante actividade que está a ser desenvolvida é a sensibilização da população local para o acolhimento dos turistas e visitantes e o incentivo à realização de actividades de entretenimento e animação, bem como à produção de artesanato. Abrir caminhos Os resultados iniciais deste trabalho de sensibilização puderam ser apreciados durante o primeiro Encontro Transatlântico de Arte, realizado em Porto Madeira, em Agosto passado. Um evento preparado minuciosamente e que contou com a participação de vários artistas nacionais e estrangeiros. Além de pôr a localidade no mapa do turismo rural/ecológico e transformá-la num pólo cultural e artístico, Misá frisa o objectivo de atrair os jovens cabo-verdianos na diáspora (que muitas vezes deixam de voltar ao torrão natal e assim investir no seu desenvolvimento) e também sanar o êxodo rumo às cidades e ao estrangeiro. Antes da chegada dos artistas, ao longo do ano, Misá trabalhou com um pequeno grupo de artistas e a população local, na recuperação das casas e no embelezamento dos lugares, o que deu à pequena povoação um aspecto de cartão postal. Na zona de Achadinha, à qual se chega após uma aventurosa caminhada monte acima e abaixo, dez pequenas casas foram reformadas, pintadas de mil cores, apetrechadas e baptizadas com os nomes das dez ilhas de Cabo Verde. Imaginou-se que aí ficariam alojados os artistas que viriam para o encontro de arte e é ali agora o pequeno aldeamento para alugar aos turistas rurais. «O preço da estadia é bastante acessível e inclui o pequeno-almoço típico do campo. Este montante fica depositado no fundo criado para Porto Madeira e que será gerido pela associação de moradores», conta Misá abraçada a Tchaka Valentim, um artista plástico da Cidade da Praia que há meio ano vive e trabalha na aldeia. Formado em Engenharia Civil, Tchaka tem feito em Porto Madeira de tudo um pouco: pinta casas, esculpe, trabalha em carpintaria, na construção de muros e recuperação de casas abandonadas. É o gestor de materiais e frisa a importância de aproveitar cada pedaço de madeira. «Aqui a palavra de ordem é reciclar. Aproveitamos todo o material já existente, o que não serve para uma coisa há-de servir para outra», diz. O resultado é ver-se pela aldeia árvores enfeitadas com penduricalhos de garrafas de refrigerantes, postes cobertos de chinelos e sapatos velhos, pilões rachados a servirem de suporte a bancos. Lixo que tornava feias as encostas e vales agora convertido em originais enfeites e utensílios. Outro dos artistas temporariamente alojados na aldeia para ajudar na preparação do Encontro de Arte é José Tomás Ferreira, também proveniente da Cidade da Praia, onde tinha um pequeno ateliê. Inspirado por Porto Madeira, produziu dois quadros nos quatro meses que leva desta experiência. Além da produção artística colaborou na recuperação de casas, entre outras tarefas. «Mais árduo do que o trabalho manual é mudar as mentalidades, vencer a resistência de algumas dessas pessoas à mudança, ao progresso», diz o artista, referindo-se ao receio inicial de alguns dos mais velhos perante tanta agitação na habitualmente pacata aldeia. Mas estes mais velhos parecem já estar convencidos dos benefícios da sua abertura ao mundo. Alguns resultados já estão à vista: água potável mais acessível, graças à construção dos tanques e chafarizes e luz eléctrica, pelo menos por algumas horas; dádivas há muito aguardadas e que só a persistência de Misá permitiu que não mais tardassem. Para além do aspecto logístico, houve a preocupação de fazer um embelezamento artístico do local, que viria a ser completado durante o encontro de artistas. Assim nasceram a «Rotunda da Meia-Lua», «O Caminho Poético» e a «Ribeira do Amor». A rotunda, um pequeno anfiteatro de pedra, tem servido de ponto de encontro da aldeia e é lá que se têm realizado algumas actividades, como a sessão de contos promovida pelo Centro Cultural Francês da Praia, com vista à recuperação das tradições orais, e que teve uma plateia repleta de jovens locais e citadinos. «O Caminho Poético», um trilho de dois quilómetros que percorre montanhas e fará as delícias dos amantes de caminhadas, deve o seu nome às placas de madeira colocadas ao longo da vereda, que têm inscritos poemas de bardos cabo-verdianos traduzidos em três línguas. Por fim, a «Ribeira do Amor» será, nas palavras de Misá, um espaço para o elogio à mulher de Cabo Verde e do mundo. A primeira homenageada da série Mulheres Mitológicas foi a Rainha Pokou, da Costa do Marfim. Encontro Transatlântico de Arte O embrião do Encontro Transatlântico de Arte foi a exposição Arte Nómada, organizada por Misá no início deste ano, no Palácio da Cultura da capital cabo-verdiana. Nesse evento, quadros, esculturas, livros, fotografias e colagens, entre outros trabalhos artísticos provenientes das mais diversas paragens, foram mostrados ao público que podia escolher e levar para casa uma obra. Durante uma semana a pessoa ficaria na posse do objecto e deixaria comentários relativos ao mesmo num blogue criado para o efeito. Passada a semana a obra artística seria encaminhada para um amigo noutra parte do mundo, que deveria proceder do mesmo modo. A corrente foi um sucesso e chegou ao seu destino final a tempo: Porto Madeira, Agosto de 2008. França, Senegal, Costa do Marfim, Itália e Cabo Verde foram os países representados nesta primeira reunião intercontinental que ao invés de fóruns e conferências se revestiu principalmente da troca de experiências artísticas e do convívio sociocultural. Os artistas e convidados ficaram alojados e tomaram as suas refeições nas casas dos habitantes de Porto Madeira. Nem todos puderam vir e nem todas as actividades programadas se concretizaram. Mas todos são unânimes em dizer que o primeiro Encontro Transatlântico de Artes-Porto Madeira 2008 foi um sucesso. Pintura artística e de edifícios, esculturas várias (entre as quais a da Rainha Abla Pakou e outra representando Misá, feita pela artista francesa Anne Mourat), música e danças de várias paragens, filmes exibidos em ecrãs trazidos da cidade – inclusive um filme sobre o projecto Porto Madeira –, trocas de receitas, caminhadas pelos montes e vales. De tudo isso se fez Porto Madeira 2008. Cada artista deixou uma marca. E deixaram também obras que inauguraram o pequeno museu local. «É uma nova página que estamos a abrir na história cultural de Cabo Verde», declara a dinamizadora do projecto sem esconder a emoção de ver um sonho tornar-se realidade. «Porto Madeira significa hoje, para mim e para aqueles que ali ‘aportaram’, uma iniciativa ‘humanizadora’ em termos de associativismo, activismo cultural e comunitário, preservação socioambiental e promoção turística», refere o poeta cabo-verdiano Filinto Elísio, um dos participantes no Encontro de Arte e que deixou por lá alguns versos que enfeitam agora o «Caminho Poético». «O que prende o coração dos visitantes, sejam artistas em intercâmbio ou turistas de passagem, é o espírito da arte no lugar e nas pessoas engajadas nessa resignificação», sublinha o bardo. Para Ana Isabel, professora portuguesa radicada em Cabo Verde, «decorar uma árvore com dezenas de garrafas vazias de coca-cola, sprite e fanta pode não ser a vanguarda da Art Déco, mas ao contemplar o efeito final, conseguido com uma acção tão simples e criativa, faz-nos sentir ter a força suficiente para mudar o nosso pequeno cosmos, depois o nosso país e, em última escala, o planeta». Para já é Porto Madeira que mudou. As gentes continuam as mesmas mas a paisagem, esta, além da novidade anual do verde deixado pelas azáguas, tem agora o colorido de um arco-íris. E as gentes têm a esperança no mais que virá. Artigo publicado na edição de Dezembro da revista África 21 |